segunda-feira, fevereiro 25, 2008

ONDE OS VELHOS NÃO TEM VEZ (No Country for Old Men)


Um dia destes um dos meus filhos me devolveu uma coleção de livros que eu julgava perdida. Não que eu achasse que ele não devolveria (uma possiblidade) mas porque eu simplesmente não me lembrava mais o que eu tinha feito com ela. Era a coleção dos livros de faroeste do Max Brand que eu comprei lá pelos anos cinquenta. A minha cidade, nesta época, tinha duas livrarias. De vez em quando, mas muito de vez em quando, surgia um livro do Max Brand. O personagem era o Silvertip. Eu tinha que ficar atento e o ficar atento significava passar seguidamente nas duas livrarias para ver se tinha chegado alguma coisa nova. Naquela época as livrarias recebiam meia dúzia de volumes (no caso do Max Brand, um ou dois)e se eu não corresse estava fora. Max Brand era o único autor de livros de faroeste que passava pelo meu crivo crítico. Depois não li mais nada do gênero. No ano passado, entre os livros que eu recolhi nas prateleiras da Cultura ou da Saraiva, não lembro qual, e carreguei para o café estava Onde os Velhos Não tem Vez, de Cormac McCarthy. Já no primeiro capítulo me chamou a atenção e foi um dos escolhidos do dia para minha contribuição financeira ao setor editorial. Li de uma sentada só. É uma daquelas histórias onde uma situação cria outra e os personagens ficam como que sem escolha, indo ao sabor do destino e você só consegue parar quando o livro termina. Na contracapa já estava o aviso que os irmãos Cohen estavam fazendo uma adaptação para o cinema. Está ai.. e ganhou o Oscar. Como sempre o título do filme mudou um pouquinho, substituindo o old por fraco, o que não altera nada a não ser, possivelmente, o nome da nova edição do livro.
Ainda não vi o filme mas com esta história e dirigido pelos Cohen deve valer a pena, mesmo tendo ganho o Oscar. Acredito que deve sair em DVD em seguida mas também acredito que deve ser daqueles filmes que vale a pena ver no telão.
Até a próxima postagem.

2 comentários:

Carlos Eduardo da Maia disse...

Vale a pena ver no telão, Cineman. O filme todo é muito bom. A fotografia, o som do deserto, os diálogos, a mensagem. Fiz um comentário no depósito sobre o filme: Os irmãos Joel e Ethan Coen fizeram o excelente Fargo que é um mix de violência com ingenuidade média americana. Em "Onde os Fracos Não Têm Vez" os irmãos Coen relembram Fargo, mas com gotas mais perversas da violência e com pitadas significativas do poder da força da grana que ergue e destroi coisas belas. Por que um homem comum resolve pegar uma maleta de dinheiro sujo e mudar totalmente o curso de sua vida, assumindo os grandes riscos do episódio? Por que as pessoas, certas pessoas, escolhem o caminho mais lucrativo e violento da vida mesmo sabendo e tendo a santa consciência de que o sonho dourado de uma vida certa, rotineira, longa e sadia pode ir para o espaço?


E a cidade pacata (e chata) do deserto do meio oeste americano, ali perto da fronteira com o México, onde a trilha sonora do vento bate forte, acorda para um dia anormal, porque foi sacudida com o barulho estridente e seco do tiro que a impiedosidade mata. Como é difícil para o americano médio mudar a sua rotina. Como é difícil para o homem branco comum responder perguntas diretas, pertinentes e desagradáveis. E no contexto disso tudo surge o grande vilão da história recente do cinema, Anton Chigurh (Javier Bardem), que lembra a morte do sétimo selo de Bergmann. A diferença é que o impiedoso do Chigurh não tem tempo para jogar xadrez, ele tem pressa e prefere jogar "cara ou coroa" e se o vivente a ser executado erra na aposta recebe o tiro seco e profundo da morte. Tudo na mesma hora, porque não importa - tempo é dinheiro.


O assassino frio não pertence aquele tempo e nem ao pitoresco lugar. Chigurh pertence a outras léguas e a outras épocas. Enquanto o homem médio de 1980 vai - ele já está voltando. Chigurh gosta de conversar sobre os assuntos banais da vida e faz perguntas secas sobre a rotina das pessoas e, por que elas agem dessa forma. A resposta não vem. A solução é jogar. Basta jogar o jogo da vida? Vale a pena o desafio? Você escolhe, cara ou coroa?

CINEMAN disse...

Beleza de comentário Carlos Eduardo.