sábado, março 01, 2008

A SUCATA E UM HOMEM TEM QUE SER MORTO



Final dos anos sessenta. Eu tinha me formado em agronomia e agora tinha os meus dois irmãos seguindo meus passos. O mais velho deles me procura dizendo que queria dar uma guinada na vida, parar os estudos e colocar uma casa noturna em Pelotas. Ninguem estava apoiando a idéia e ele precisava financiamento. Ele foi convincente. Contra a opinião de todos fiz um pequeno empréstimo e surgiu a SUCATA, que durante muito tempo foi a melhor casa noturna de Pelotas. Depois, para a felicidade de nossa mãe, ele voltou para a agronomia e concluiu, com louvor, o curso. Mas exatamente no período que a SUCATA estava funcionando aparece em Pelotas um produtor cinematográfico com um projeto de um filme de ficção cientifica - UM HOMEM TEM QUE SER MORTO. Na realidade o cenário futurista era um disfarce do produtor/diretor para poder levar avante sua critica ao regime ditatorial. A cidade passou a viver o filme. No tempo das cabeleiras, cabeças raspadas começaram a fazer parte da paisagem. Eram os extras de Um Homem tem que Ser Morto. A SUCATA foi escolhida como um dos cenários e um cenário que não tinha nada a ver com ela - os porões da ditadura. Ali eram torturados os dissidentes do governo totalitarista. Como estavamos em plena ditadura claro que o filme não pode ir muito longe. Nem o Davide Quintans, o produtor/diretor que eu falei lá em cima, tem uma cópia do Um Homem Tem que ser Morto. Eu conheci o Quintans muito tempo depois quando ele apareceu no banco de desenvolvimento que eu trabalhava para financiar um outro filme - Meu Doce Vampiro - que acabou não passando do roteiro. Ontem, depois de muito tempo, encontrei o Quintans e ele, além de me prometer fotos das filmagens na SUCATA que ele havia resgatado, me falou de seu novo filme - A ILHA DOS ESCRAVOS. A ILHA DOS ESCRAVOS é uma coprodução de Espanha, Portugal, Cabo Verde e Brasil. Quintans é o co-produtor do lado do Brasil. O filme ainda não foi lançado e tem Zezé Mota e Milton Gonçalves entre os atores brasileiros. O Diretor é o português Francisco Manso, de quem nós já vimos o muito bom - O Testamento do Senhor Nepomusceno. O cenário brasileiro foi em Alagoas, na cidade de Marechal Deodoro. Mas poderia ter sido no Rio Grande do Sul. Foi a primeira alternativa trabalhada pelo Quintans, que há muito tempo se adotou como Porto Alegrense. Eles queriam só apoio logístico. Nem isto conseguiram, parece que aqui é pecado apoiar alguém que não faça parte daquela panelinha que vocês conhecem. É uma espécie esquisita de reserva de mercado que independe do partido que estiver no poder. Eu não entendo. Acho que ninguém entende.

Fotos da filmagem de Um Homem Tem que Morrer na SUCATA

Um comentário:

Pobre Pampa disse...

A Sucata, realmente, era genial! O prédio, um dos casarões pelotenses, já foi de tudo um pouco, mas aquele porão nunca mais foi o mesmo, depois da Sucata!