quarta-feira, fevereiro 14, 2007

CINEMA ASPIRINAS E URUBUS


Lembro com certeza que corria o ano de 1968. Eu trabalhava como extensionista rural numa cidade dos Campos de Cima da Serra, no Rio Grande do Sul. Trabalho dificil. Convencer os produtores rurais a adotarem novas técnicas de agricultura não estava na lista das coisas fáceis. A cooperativa de agricultores da cidade, apesar de ter perto de mil associados, na maioria colonos, era dominada por meia duzia de grandes produtores, os granjeiros. Dominada talvez seja um termo forte, o fato é que nas eleições para presidente da cooperativa era sempre um granjeiro que concorria e.. ganhava. Entre os diversos personagens interessantes da cidade existia um dentista que, pelo menos eu supunha, dividia comigo o gosto pelo cinema. Nos sábados e domingos ele percorria a região colonial do município carregando um antigo projetor de 16 mm com o qual passava filmes antigos e documentários para uma platéia de atentos agricultores. Mas, oh inocência minha, não se tratava de amor pelo cinema. Na eleição seguinte da coooperativa o meu amigo projetista lança sua candidatura e ganha disparado com o voto do público de suas matinés.
O filme nacional Cinema Aspirinas e Urubus me lembrou esta estória. Cinema Aspirina e Urubus é um filme de estrada que tem como pano de fundo a segunda guerra mundial. O inicio é muito lento mostrando o personagem principal, o alemão Johann, dirigindo um caminhão, abrindo porteiras, fechando porteiras, praticamente em tempo real. Dá carona para um caçador, fala com um outro sertanejo parado na estrada, dá carona para um outro, Ranulpho, que vai acabar ficando seu ajudante e lhe acompanhando a viagem inteira. As imagens das pessoas e a lentidão do filme estão querendo mostrar a tristeza da seca? A inexistência de saidas para os nordestinos sofridos de 42? Se é isto, não consegue. Me parece que o objetivo é espichar mesmo as cenas e transformar o que poderia ser um média metragem em um filme de noventa minutos. Outra coisa é a forma de filmagem - luz explodida para mostrar a torridez do sol nordestino e toda aquela coisa do Glauber Rocha. O resultado é que você não acaba vendo nada, apenas a cabine de um caminhão. Aos vinte minutos tem o que eu considero a grande sacada do filme - o cinema. Quando Ranulpho (não sei porque grafaram Ranulfo assim) pergunta "- como você vai vender remédio para um povo ignorante como este?" a resposta vem na cena seguinte, noite, com um documentário de São Paulo passando numa tela armada no meio da rua e logo após com uma propaganda sobre as maravilhas da aspirina.
É fácil prever que a guerra com a Alemanha, que vamos sabendo através de um rádio na cabine, vai trazer problemas para Johann. A citação de um outro fato histórico - A locomoção de nordestinos para trabalhar na Amazônia - já antecipa, também, um rumo para o final do filme. Sem surpresas. Aliás surpresas e viradas parece que é pecado e coisa de filme americano. Gostei das músicas cantadas por Francisco Alves e por Carmem Miranda. Os dois atores que fazem Johann e Ranulpho são muito bons. Compoem com naturalidade, como convém ao cinema, os seus personagens. Pode ser que seja uma invocação minha com o cinema nacional atual mas, de novo, é um filme sem estória. Vejam o filme e experimentem conta-lo em mais do que dez palavras.
Até a próxima postagem.

Informações do DVD:
Formato: Fullscreen
Idioma: Português
Legendas: Português, Inglês
site do filme com trailer
TRAILER

Um comentário:

Carlos disse...

Cinema, Aspirinas e urubus é o filme que estava sendo indicado para o Oscar. Eu só tenho visto elogios para este filme. Mas fico sempre com um pé atras. Vou ver e depois vejo com quem eu conconrdo