domingo, março 16, 2008

O ÉBRIO e O CASO DOS IRMÃOS NAVES


Uma coisa que faz o Cineman feliz é quando alguém chega no Paris Cinema e Café e pede um filme nacional dos velhos tempos. A primeira coisa que eu pergunto é quem está pedindo o filme para ver se é um dos clientes conhecidos. Se não é, eu quero saber a idade, formação, quando fez a ficha, que outros filmes já levou. É um negócio meio de FBI. Ontem me pediram dois filmes, clássicos do cinema brasileiro, mas que não tem nada a ver um com o outro. O Ébrio, com Vicente Celestino e O Caso dos Irmãos Naves de Luiz Sérgio Person. Será que foram dois clientes diferentes? Ou será que foi um cliente que pediu os dois filmes? Neste caso há necessidade de uma investigação maior. Vicente Celestino foi o ídolo da geração anterior a minha. Era o ídolo da minha mãe. Tinha uma música que os fãs do Vicente adoravam e que eu achava engraçadissima. A letra era mais ou menos assim: "- Disse um campônio a sua amada, minha idolatrada, pede o que quizer. Por ti vou matar, vou roubar..." Seguindo a letra, a malvada da amada do campônio resolve, para testar a sua paixâo, pedir o coração da mãe do dito cujo. O campônio, apaixonadissimo, vai para casa, mata a mãe e " - Tira do peito sangrando, da velha maezinha, o pobre coração". Em desabalada carreira para a casa da amada, cantando "- Vitória, vitória, tens minha paixão" - ele tropeça, cai e quebra a perna. O coração salta longe e então uma voz "ecoou" : "- Magoou-se, pobre filho meu?". Existiam duas reações: A dos mais velhos desmanchando-se em lágrimas e a da gurizada rolando no chão de tanto rir. Gerações. Era a geração do rock surgindo.
Já o filme de Person é sobre um caso real que aconteceu durante o Estado Novo, uma das ditaduras que tivemos, esta com o Getúlio Vargas. Tendo como base a história dos irmãos Naves, Person e o co-roteirista Jean-Claude Bernardet estavam criticando todas as ditaduras. O filme foi lançado em 1967. Muita coragem, já estavamos sob o dominio da Gloriosa de 64.
Vocês viram? Se for o mesmo cliente que pediu os dois filmes eu vou ter que conversar com ele.
Até a próxima postagem.
Letra completa de Coração Materno de Vicente Celestino
Disse um campônio à sua amada: "Minha idolatrada, diga-me o que quer
Por ti vou matar, vou roubar, embora tristezas me causes mulher
Provar quero eu que te quero, venero teus olhos, teu porte, teu ser
Mas diga, tua ordem espero, por ti não me importa matar ou morrer"
E ela disse ao campônio, a brincar: "Se é verdade tua louca paixão
Parte já e pra mim vá buscar de tua mãe inteiro o coração"
E a correr o campônio partiu, como um raio na estrada sumiu
Sua amada qual louca ficou, a chorar na estrada tombou
Chega à choupana o campônio
E encontra a mãezinha ajoelhada a rezar
Rasga-lhe o peito o demônio
Tombando a velhinha aos pés do altar
Tira do peito sangrando da velha mãezinha o pobre coração
E volta à correr proclamando: "Vitória, vitória, tens minha paixão"
Mas em meio da estrada caiu, e na queda uma perna partiu
E à distância saltou-lhe da mão sobre a terra o pobre coração
Nesse instante uma voz ecoou: "Magoou-se, pobre filho meu?
Vem buscar-me filho, aqui estou, vem buscar-me que ainda sou teu!"

4 comentários:

Pobre Pampa disse...
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CINEMAN disse...

Quando eu li a letra pela primeira vez, que foi agora, até que eu achei interessante. É que o Vicente Celestino cantava com um estilo que ainda era reminisceste da ópera e dava um zoom no drama. Eu acho que era isto que não emplacava com a gurizada que já estava convivendo com outra forma de cantar.

Hugo disse...

Assisti apenas "O Caso dos Irmãos Naves", filme interessante sobre dois irmãos inocentes que foram condenados.
O diretor Person fez tb o ótimo "São Paulo SA", um drama com Walmor Chagas que mostra São Paulo no início dos anos 60 quando as indústrias estão fazendo a cidade crescer.

Visite meu blog.

Abraço.

CINEMAN disse...

O Luis Sérgio Person foi o nosso James Dean, dirigiu três filmes excelentes, um muito pouco conhecido e reconhecido - Cassy Jones, O Magnifico Sedutor, e morreu num acidente antes de completar 40 anos. Podemos apenas imaginar o quanto ele poderia ter feito.