quinta-feira, setembro 06, 2007

1,99 - UM SUPERMERCADO QUE VENDE PALAVRAS


Não vou recomendar para vocês o filme 1,99 de Marcelo Marsagão porque não quero ser mandado para lugares nunca dantes navegados. Apesar da incontestável capacidade do diretor e de ter apenas uma hora de duração, o filme é impossível de ser visto até o fim. Marsagão partiu das idéias da jornalista canadense, Naomi Klein, que chegou a ser estrela do nosso saudoso (?) Forum Social Mundial. O livro de Naomi Klein - Sem Logo, A Mania das Marcas em Um Planeta Vendido (No Logo) é uma coleção de argumentos contra a globalização. Em seu livro Naomi ataca diversas multinacionais, entre as quais a Disney Corporation, Microsoft e, claro, o McDonalds, eterno vilão de todos os contestadores. Mas o foco principal do livro é a Nike, acusada de explorar a mão de obra chinesa, fechar fabricas em paises onde os sindicatos se tornaram fortes e investir poderosamente e prioritariamente na marca, no logo. A Nike já respondeu a todas as acusações mas não teve a mesma cobertura, apesar de todo seu poder, que a Sra Klein.
O filme. O filme se passa todo em um supermercado estilizado, todo branco, clean, os produtos são caixas brancas, vazias, sem produto, mas contendo as mensagens publicitárias. Ou seja, as pessoas naquele supermercado não compram produtos, compram slogans, compram logos. Os slogans nas caixas tem uma mistura de auto ajuda com chamadas publicitárias conhecidas. Algumas bem sacadas, outras não tanto. Nada suficientemente instigante para manter a atenção da vitima. Uma cena pelo menos eu achei genial. É uma caixa eletrônica erótica. No caixa aparece a imagem de uma mulher de cabeça baixa mas quando o cliente passa o cartão ela levanta a cabeça e mostra um sorriso. Ao mesmo tempo aparece o letreiro "- Passe de novo, por favor". O homem não se faz de rogado e passa o cartão novamente. O sorriso da mulher amplia. O homem começa a passar o cartão ansiosamente com a pronta e esperada resposta da caixa. O orgasmo manifestado através da dispensa de um bloco de notas. Em determinado momento Marsagão percebe que apesar da boa fotografia, do bom trabalho de câmera, da música bem interessante, está tudo muito parado. Ele promove então uma inexplicável batalha de paintball entre os fregueses do supermercado. Outro ponto interessante. Ninguem fala. Os clientes parecem robôs comprando. Metrópolis?
Como eu disse, não é para todos. Quem tem um posicionamento político coincidente com a Sra Klein pode apreciar o filme e descobrir mensagens que eu, avesso a estas idéias, posso não ter percebido.
Uma coisa que também me chamou a atenção foi a quantidade de patrocinadores do filme. Fora os tradicionais Petrobrás, BNDES e Banco do Brasil sempre presentes, com nosso dinheiro, em obras com pretenso conteúdo anti neo-liberalismo, aparecem uma enorme quantidade de marcas/logos como apoiadores. E a apresentação destas marcas no inicio do filme chama a atenção pelo tempo que ocupam. São quase 30 marcas ou mais. Claro que a exposição das marcas durante um tempo tão grande é intencional de parte de Marzagão. Compôem o filme. Marsagão está gozando com seus apoiadores? Ou é o contrário, o filme de Marsagão é feito como as marcas que ele pretensamente pretende condenar? São leituras interessantes.
Até a próxima postagem

UM VIDEO SOBRE LOGO

2 comentários:

Prof Charles disse...

Obrigado pelo aviso. Como liberal confesso vou passar longe do 1,99

Anônimo disse...

Eu vi o filme e achei interessante. Quem trabalha no ramo de publicidade vai adorar o filme. O diretor, ao meu ver, usa os mesmos sistemas que pretensamente condena para realizar o filme.