quinta-feira, agosto 23, 2007

A CIDADE PERDIDA (THE LOST CITY)


Este filme saiu já há algum tempo. Não muito. Mas eu não havia visto nem comprado porque todas as críticas que li não eram muito simpáticas ao filme. Depois vi o trailer e gostei. Não pode ser tão ruim assim, pensei. Comprei o filme e vi ontem a noite. Primeira coisa - gostei muito. É o primeiro filme, e único até agora, dirigido por Andy Garcia e um filme que ele vinha preparando há pelo menos quinze anos. Um filme sobre sua Cuba, aquela que hoje é de Fidel.
O filme é baseado em um texto do escritor cubano, Guillermo Cabrera Infante, morto em 2005. Guillermo que também era critico de cinema, viveu em Cuba no período de Batista e de Fidel. Comunista, não concordou com o rumo que Fidel deu a revolução e, de certa forma, mostrou isto no seu roteiro. No meio do filme um personagem pergunta a outro: "- Mas Fidel é comunista?" e o outro com um sorriso ironico "- Fidelista".
Andy Garcia interpreta Fico Felone, um dono de cabaret, muito parecido com Rick de Casablanca para não ser proposital. Politica não lhe interessa, só o seu cabaret - El Tropico. O Cabaret e a familia. O pai um professor da universidade de Havana, a mãe, dois irmãos e suas respectivas mulheres e um tio solteiro produtor de fumo e charutos. A corrupção e a violência do governo de Fulgencio Batista é apresentada claramente na primeira parte do filme. Mas a revolução já está apontando com Fidel Castro em Serra Maestra. Em Havana um grupo de intelectuais, comandados por um misterioso lider que depois vamos saber, é Luis, um dos irmãos de Fico, tenta assassinar o ditador.Da mesma forma que Rick em Casablanca, Fico aos poucos passa a assumir uma posição política. Só que ele é levado a isto em duas situações. Uma com Fulgêncio e outra com Fidel. Ele aprende logo que ditadura é ditadura, tanto faz qual é o discurso do ditador. Um personagem que aparece bastante no filme é Che Guevara. O filme apresenta uma particularidade de Che pouco conhecida, ou divulgada - o assassino frio. Uma cena: Che passa por um soldado de Fulgêncio ferido e ordena para um comandado seu que está ao lado: "- Degola" e em seguida ao passar por outro ferido, saca o revólver e o mata a sangue frio. Outra ótima - Che doutrina um companheiro não muito brilhante, sua forma de falar é rebuscada e ininteligível para o outro. Mas Che acaba concluindo com uma máxima que nós conhecemos muito bem. "- O fim justifica os meios, companheiro". Um outro personagem real que aparece no filme é Mayer Lansky (Dustin Hoffman), o gangster judeu, amigo de Lucky Luciano e Bugsy, que explorava o jogo na Cuba de Fulgêncio. Lansky tenta convencer Fico a abrir seu cabaret para o jogo. Fico não aceita a proposta embora Lansky não seja um homem que saiba lidar bem com rejeição. Uma bomba explode no El Tropico matando a dançarina e namorada de Fico. A origem do atendado parece ser óbvia mas no final do filme, já nos Estados Unidos,Fico encontra Lansky novamente e ele lhe assegura não ter ordenado o atentado, que aquele não é seu estilo. Como Fico passa a trabalhar com Lanky fica claro que ele acreditou. O filme então, aparentemente, está relacionando o atentado com os Comandos de Acción e Sabotage, grupo ligado a Fidel, que suspeita-se tenha praticado vários atos de terrorismo em Havana.
Andy Garcia não perde muito tempo com as batalhas dos guerrilheiros de Fidel com Fulgêncio. Não é isto que ele está tentando contar. A cena de passagem de um governo, digo, de uma ditadura para outra, é simples e curta, um patético discurso de Fulgêncio na porta do avião que vai levá-lo para o exílio.
Não posso deixar de falar de um estranho personagem, The Writer (Bill Murray), que se apresenta como o homem que não tem nome. Durante todo o filme ele se deleita em dizer frases enigmáticas possivelmente significando alguma coisa que eu não me dediquei a interpretar e que sempre está ao lado de Fico. Um crítico que li, afirma que o escritor Guillermo Infante colocou este personagem para representá-lo no filme. É uma boa teoria. Mas o nosso querido Bob sempre é bem vindo.
Outra cena maravilhosa. Fico está ensaiando sua banda e seus dançarinos quando irrompe uma mulher dizendo ser a ministra dos bons costumes ou da cultura, não lembro. Ela quer que Fico elimine o saxofone da banda por ser um instrumento imperialista. (Sempre achei o trombone de vara, por sua visual agressividade, muito mais imperialista). Fico tenta explicar que o criador do saxofone foi um belga chamado Sax mas não adianta, a ministra diz que os belgas também são imperialistas e que exploram os companheiros africanos. O sax é banido. Mais tarde Fico vai ter o seu cabaret nacionalizado e, não sabendo fazer outra coisa, especialmente colher cana, decide abandonar Cuba. No aeroporto outra cena interessante. Fico é obrigado a deixar anéis, relógio, só consegue passar com sua filmadora 16 mm. "-Para que você quer uma camâra?" lhe pergunta o soldado da alfândega. "- Para filmar a decadência americana" responde Fico.
Não falei de romance mas o filme tem muito. Fico é apaixonado pela viuva de seu irmão e é correspondido. Mas Aurora (Ines Sastre) tornou-se a Viuva da Revolução e assume esta missão. Quando Fico quer leva-la para os Estados Unidos ela rejeita mas pede que ele fique."-Você acha que é uma causa perdida?" pergunta Aurora. "-Não, é uma cidade perdida".
Certamente falei demais mas são duas horas e vinte de filme portanto acho que tenho uma justificativa. Não percam. Muita música cubana, muita dança. O fim do filme é uma homenagem de Andy Garcia a Rosa Purpura do Cairo de Woody Allen.
Bom filme e até a próxima postagem
TRAILER DE LOST CITY

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2 comentários:

CINEMAN disse...

Outra história real que aparece no filme é a do sequestro do piloto argentino, Juan Manuel Fangio, pela guerrilha cubana. Fangio aparece no cabaret de Fico logo após ter sido solto pelos guerrilheiros.

Carlos Eduardo da Maia disse...

Essa história do saxofone é verdadeira. Os revolucionários consideravam o sax um instrumento burguês.