domingo, março 11, 2007

FOGUEIRA (Medurat Hashevet) E A REFORMA AGRÁRIA


Quando estudava na faculdade de agronomia em meados de 60 tive a oportunidade de assistir o inicio do assentamento do Banhado do Colégio, em Camaquã. A característica principal dos assentados era, como ainda é hoje nos assentamentos em geral, a sua extrema diversidade. Lado a lado com o homem acostumado com as lides da terra estava o assessor do prefeito, do deputado e, segundo me lembro, até o dono do cartório. Era uma oportunidade única - terra de primeira entregue de graça pelo estado. No Banhado do Colégio chegou a se produzir 6 toneladas de milho por hectare, quando no resto do estado o máximo que se conseguia era pouco mais de uma tonelada. Tudo graças a matéria orgânica do antigo banhado, que hoje a FEPAN não deixaria secar, e a irrigação. Esta estória me veio a mente quando vi o filme FOGUEIRA. FOGUEIRA é uma produção israelense que se passa no ano de 1981 e que trata dos assentamentos, com forte orientação religiosa e política, que estavam sendo implantados por Israel na Cisjordänia. Joseph Cedar, diretor que teve seu filme boicotado pelos religiosos conservadores, em Israel, apresenta com muita clareza que, sob o manto da religiosidade, estava se aproveitando uma oportunidade única de conseguir terra de graça. A estória é de uma viúva, Rachel, com duas filhas que tenta participar de um grupo que está sendo fechado para conseguir concessão de uma nova área. Missão dificil para Rachel. O preconceito em relação à mulher não permite, de forma nunca colocada com clareza, que uma mulher sem um homem possa se habilitar à um lote. Aliás, ela não consegue nem vender o carro do marido morto. Ninguém quer negociar com uma mulher. Enquanto ela procura um candidato à marido para atender a exigência implicita, que oscila entre um motorista de ônibus e um cantor de músicas religiosas, surge um problema com sua filha menor que agrava a situação. Num momento de celebração dos jovens, o Lag Baomer, que motivou o título nacional, Tami, a filha menor, é estuprada por um grupo de garotos. Cadeia para os meninos? Não. Mais preconceito - Tami é acusada de prostituição e tem a casa toda grafitada com palavrões e é mais um agravante na conquista do tão ambicionado lote por parte de Rachel. Um outro tema importante do filme é a desestruturação crescente da pequena familia de Rachel que passa pelo confronto contínuo com Esti, a filha mais velha, o diálogo inexistente com Tami, a recusa das duas filhas em sair da cidade e depois uma sutil virada que leva ao final menos amargo.
Gostei muito da música de Ofer Shalchin, quase incidental durante todo o filme.
É um daqueles filmes perdidos nas locadoras. Aconselho. Um belo filme. Absolutamente imperdível para as mulheres.
Até a próxima postagem

3 comentários:

Carlos disse...

Quando será que nossos cineastas faram um filme sobre os sem terra, ou sobre os assentados? Material tem de montão. Mas acho que só um roteiro "politicamente correto" obteria os famosos incentivos da Petrobrás, Banco do Brasil, BNDES e outros.

Buggyman disse...

Sem entrar no mérito do assunto, apenas pegando o gancho lançado pelo Carlos: porque o cinema brasileiro precisa de verbas públicas para se sustentar? e porque há uma grande amarra nestes patrocínios, sempre para os mesmos?

Confesso que detesto o cinema nacional! Poucos filmes são interessantes. Talvez "Neto perde...", que não conseguiu expressão nacional. Central do Brasil? Horrível, em minha prosaica opinião. Mas sou apenas um expectador.

Teixeirinha nunca usou verbas oficiais. Acho que Mojica também não usava. O que está havendo atualmente?

Carlos disse...

Muito simples. Tem uma reportagem na Veja de duas semanas atras, eu acho, que mostra isto com muita clareza. Além do patrocinio das entidades ditas públicas ser sempre para os mesmos e para filmes que tenham roteiros dentro do pensamento político vigente existe também muita sacanagem. Dinheiro roubado literalmente do povo e que vai para o bolso de meia duzia de pilantras.