sexta-feira, dezembro 16, 2011

INTERPRETANDO UN CUENTO CHINO


Antes da Redentora, após assistir um filme europeu, era obrigatória a reunião em um café ou confeitaria, onde, candidatos à intelectuais, mantinhamos enormes elucubrações sobre as verdadeiras intenções do diretor. Fellini era um prato saboroso. Lembro que quando passou Dolce Vita mergulhamos em debates aprofundados sobre diversas partes do filme, entre elas o peixe que aparece morto na praia, na cena final. Sempre tinha alguém que tinha ouvido alguma coisa de um crítico ou de um outro grupo e isto tirava um pouco da criatividade. O peixe, segundo a versão mais aceita, significava a soma de todas as religiões que se extinguiam frente à devassidão do mundo. Mais tarde vi um artigo do Fellini dizendo que ele se divertia muito com todas estas interpretações. O peixe era um peixe. Era uma cena que ele achou bonita de colocar no final do filme. Claro que Fellini estava brincando. A religião e devassidão (solidão) passam por toda Dolce Vita. O cristo no inicio e o peixe no fim do filme não estão ali apenas por razões estéticas.
Então vamos voltar no tempo e vamos supor que Sebastian Borensztein (diretor de Un Cuento Chino) é o nosso Fellini. Bem interessante porque já comparamos Darin à Marcello.
Critica à indústria argentina - Quando Roberto conta os parafusos fabricados e empacotados pela Philips, Industria Argentina, e nota que sempre faltam alguns, é uma clara crítica à industria Argentina.
Critica aos políticos - Na mesma cena quando ele diz que faltar um parafuso ou faltar cem é a mesma coisa - roubo, ele está fazendo uma clara crítica aos políticos que procuram justificar suas ações com quinhentas explicações. É sempre roubo. Assim como não existe uma mulher meia grávida, não existe um político meio corrupto.
Crítica ao comunismo - Quando Roberto visita a embaixada da China, vemos a burocracia e incompetência dos funcionários da embaixada, numa clara crítica ao sistema comunista. A forma que Roberto é expulso da embaixada mostra também o autoritarismo próprio dos regimes ditatoriais.
A nova China - Sebastian de forma sutil procura mostrar a nova China. Ao mesmo tempo que na embaixada vemos a burocracia e o autoritarismo, representando a velha China e o comunismo. Conhecemos Jun, que sem saber falar nada além do Mandarin, se arrisca numa terra estranha, a Argentina, numa clara mostra do empreendedorismo da nova China capitalista.
Crítica à Buenos Aires -  Conheciamos uma Buenos Aires de vida noturna ativa, grandes teatros, restaurantes, bares e cafés. Uma cidade brilhante. A crise econômica colocou Buenos Aires em outra situação. Roberto é obrigado a ir para o aeroporto, com um lanche, ver o movimento dos aviões, passatempo comum à outra cidade insípida, São Paulo.
Guerra das Malvinas - As cenas da guerra são tão mal feitas que procuram mostrar a diferença entre a tecnologia de terceiro mundo - Argentina, frente ao poderio britânico, representante do primeiro mundo.
A Vaca - A melhor de todas. A vaca inicia e termina o filme. Inicio trágico e fim para cima. A vaca sagrada indiana mostrando que não controlamos nada. O sagrado - Deus - determina tudo. A vaca mudou a vida de Jun, matou sua amada mas o mandou para uma aventura de redenção na longínqua Argentina. A vaca desenhada por Jun no muro de Roberto, lhe mostra que ele pode ter sua redenção. E ele entende que isto significa Mari. E daí o final meloso mas excelente de Cuento Chino.

2 comentários:

Anônimo disse...

A utilização de simbologia por Borenzstein, indica que ele inspira-se em Buñel? Ou existem diferenças significativas, que o tornam mais autêntico?

Saudações,

Prof. De Leon

CINEMAN disse...

Uma heresia. Eu não gosto muito de Buñel. Mas ele escolhia melhor as mulheres de seus filmes, pelo menos aqueles em que aparecia a Catherine Deneuve.