sexta-feira, agosto 17, 2007

NA MIRA DA MORTE (TARGETS)


Um dos filmes mais assustadores que eu vi foi o Drácula com o Bela Lugosi. Claro que faz muito tempo. Acho que foi no Teatro Guarani de Pelotas que era um teatro enorme no qual deviam caber uns dois ou tres São Pedros (o teatro) dentro. Isto contribuiu para o filme ficar mais assustador. Naquela época o terror era por conta de vampiros, lobisomens, a criatura do doutor frankestein, a múmia do Boris Karloff. Bons tempos. Hoje o terror é a bala perdida, o assaltante na sinaleira ou no estacionamento do shopping, a pista sem grooving, o avião sem manutenção, o político corrupto, a fome insaciável do governo por impostos, os brinquedos sem segurança, o desrespeito as leis, o aquecimento global, o pitbull do vizinho, as torcidas organizadas, a imprensa oficialista, o fanatismo religioso.
Um filme marcou esta transição entre o velho e poético terror e um novo terror, muito mais assustador e muito mais real - TARGETS, de Peter Bogdanovich. Bogdanovich ficaria conhecido logo em seguida pelo badaladissimo A Última Sessão de Cinema, que o levou a fama, principalmente entre os auto denominados - cinéfilos.Era o tempo em que a meninada se reunia para falar de cinema e tinha que dizer que adorava o Saura e que Minha Mãe Fez Cem Anos era um filme admirável mesmo que tivesse dormido no meio da sessão. Pois Target não entrou nestas discussões mas tem muita coisa interessante. Roger Corman, guru do filme B, que jamais ultrapassa uma semana fazendo um filme, conheceu o jovem Bogdanovich e gostou de algumas coisas que ele tinha escrito no Esquire. Fez Bogdanovich como seu assistente numa de suas produções e viu que o jovem tinha talento. Roger Corman chamou Bogadanovich e propos que ele dirigisse um filme de sua produção. Algumas condições. Boris Karloff devia dois dias de trabalho para Roger Corman e teria que ser utilizado no filme. Pelos padrões de Roger, dois dias equivaleriam a 20 ou 30 minutos de filme. Concidionou também que Bogdanovich utilizasse 20 minutos de um outro filme de Roger onde Karloff atuara, Sombras do Terror (The Terror) e que preenchesse o resto com uma história qualquer. Bogdanovich, provavelmente se inspirando em Charles Whitman, começou a escrever o seu roteiro. Charles Whitman, algum tempo antes, havia subido na torre do campus de Austin da Universidade do Texas, e com um fuzil começou a atirar a esmo, matando diversos estudantes. Era o novo terror. Não mais velhinhos esquisitos atacando vitimas escolhidas a dedo e com objetivos bem definidos - a preservação da espécie no caso dos vampiros - mas uma pessoa comum matando qualquer um sem motivo aparente. Pronto o roteiro, que foi escrito pelo próprio Bogdanovich e sua mulher Polly Pratt, Bogdanovich o leva para um amigo dar uma olhada. O amigo era nada mais nada menos que Samuel Fuller. Fuller reescreve completamente o roteiro e devolve a Bogdanovich. Como Fuller não aceitou ser incluido nos créditos, a forma que Bogdanovich encontrou de homenagear o amigo foi dar o nome de Fuller à um dos personagens, justamente o que ele interpreta, Sammy Michaels. (Michaels era o nome do meio de Fuller).
A história - O filme começa com as cenas finais de Sombras do Terror, onde um tenente do exército de Napoleão, Andre Devalier, chega ao castelo do Barão Frederick Victor (Boris Karloff). Ei! Este cara não é estranho. De onde eu conheço? Surpresa - é Jack Nicholson num dos vários filmes que fez com Roger Corman. Com bastante criatividade Bogdanovich utilizou as cenas finais de The Terror, que são as iniciais de Targets, para colocar os créditos de Targets, que são completissimos, não escapa nem o vendedor de pipocas. Acenden-se as luzes e vemos Byron Orlok (Boris Karloff) sentado, entre outras pessoas, acabando de ver a projeção de seu último filme. Orlok não gostou e anuncia a sua aposentadoria. Súplicas, ordens, existem compromissos já assumidos. Orlok está irredutível. O mais desiludido é o jovem diretor Sammy Michaels (Peter Bogdanovich) que tem um roteiro pronto e só Orlok pode tornar o filme possível.
A outra história paralela - Bobby Thompson (Tim O´Kelly) está numa loja de armas e compra um rifle. Quando ele coloca no bagageiro do carro vemos um verdadeiro arsenal de pistolas e rifles organizadamente dispostos. Alguma coisa não está certa. Bobby vai para sua casa, entra silencioso, passeia pelo seu quarto, uma foto na parede mostra ele com o uniforme do exército americano. Naquela época isto remetia diretamente para o Vietnan. Então o chamam e conhecemos o resto da familia. O pai, a mãe e a mulher. Num treino de tiro ao alvo que ele faz com o pai num descampado tem uma cena digna de Hitchcock. Quando o pai vai arrumar as latas alvos para uma outra sessão de tiros, Bobby coloca o pai na mira e fica com o dedo nervosamente passeando pelo gatilho. É uma cena de muita tensão. Não se tem a mínima noção se ele vai atirar ou não.
E assim vão sendo construidas as duas histórias até um final onde os dois personagens se encontram. A cena final é em um drive inn onde está sendo feita uma homenagem a Orlok e onde está passando The Terror (lembram que Bogdanovich tinha que usar vinte minutos do filme pelo menos). Nesta cena, Bobby, que já matou diversas pessoas atirando por detrás da tela, se confronta com Orlok. Mas não só com o Orlok real, mas também com o Barão Frederick, o Orlok na tela. É uma beleza. Diversas leituras para quem gosta disto.
Claro que eu recomendo o filme até porque é um prazer imenso ver Boris Karloff interpretando ele mesmo. O DVD tem ótimos comentários de Peter Bogdanovich contando mais ou menos tudo isto que eu escrevi aqui. E aproveitem que falamos de Peter Bogdanovich e revejam A Última Sessão de Cinema.
Coloco a seguir um video feito por um dos extras do filme, James Morris, que é apresentado nos créditos como "o homem com a pistola". Claro que Jim coloca só as partes onde ele aparece mas mesmo assim é interessante.
Até a próxima postagem.
http://www.youtube.com/watch?v=ufK83j5Gzds
VIDEO DO JAMES MORRIS

Um comentário:

CINEMAN disse...

Como Bogdanovich ainda tinha alguns minutos de Karloff e nada no roteiro ele filmou o velho ator contando uma história. É um conto de William Somerset Maughn - Encontro em Samarra - que Karloff narra de uma forma magistral. Resumindo um homem em Bagdá vê a Morte com sua foice e sente que a Morte o olha fixamente. Apavorado pede auxilio a um amigo e foge para Samarra para se esconder da Morte. O amigo mais tarde encontra a Morte que diz - Fiquei surpresa de encontrar fulano aqui hoje pela manhã, nós temos um encontro em Samarra ainda hoje.